Comércio sofreu com o pior abril dos últimos 5 anos

  • Monday, 15 May 2017 22:57

Levantamento da ACICG contatou que os feriados e a greve em dias úteis, além do cenário político colaboraram para a queda nas vendas

O levantamento do Movimento do Comércio Varejista (MCV) produzido pela Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG) mostrou que, o mês de abril atingiu 82 pontos, indicando queda nas vendas em relação ao mês de março (93). O resultando também ficou cinco pontos abaixo do apurado no mesmo período de 2016. “Desde novembro de 2016 não registrávamos indicador inferior ao ano anterior. Esse é o pior índice para o mês de março desde 2012, quando começamos a catalogar os dados”, conta o economista-chefe da ACICG, Normann Kallmus.

Kallmus acredita que o que motivou o pior abril dos últimos 5 anos foi a sequência de feriados e da greve em dias úteis, além do conturbado cenário político. “Foram dias de “tempestade perfeita” para o setor terciário local, que conviveu com uma inacreditável sucessão de feriados e pontos facultativos, o que reduziu as vendas e aumentou os custos de quem precisou trabalhar”, relata.

A média do quadrimestre de 87 pontos contra 83 em 2016, segue demonstrando melhora nas condições gerais, mas geram preocupações em aspectos como a lenta retomada do consumo e o comportamento do nível de emprego.

“A resposta rápida do governo ao mercado internacional em relação aos efeitos da operação “Carne Fraca” foi decisiva para que os reflexos ficassem circunscritos a uma queda momentânea das exportações, sem alterações nos níveis de preços praticados. Para o município de Campo Grande, cuja matriz de exportação tem concentrados nessa cadeia 76% dos embarques, a notícia não poderia ser melhor. Embora seja natural e esperado que a recuperação se dê de forma lenta, os elementos que explicam esse comportamento não residem na economia real, mas na inconsistência jurídica e nas intermináveis negociações políticas”, explica o economista.

Metodologia – O MCV/ACICG é um índice apurado a partir da evolução dos dados do setor, englobando as transações realizadas entre empresas e também entre consumidores e o comércio. Considerando a sazonalidade característica da atividade comercial, o MCV foi desenvolvido com base fixa definida pela média do desempenho do ano de 2014. O Índice é composto de dois outros sub índices que ajudam a avaliar sua evolução: o MCV-PF, que analisa as transações entre Pessoas Físicas e as empresas do setor terciário, e o MCV-PJ, que avalia as transações entre as empresas.

O MCV-PF de abril foi de 84 pontos, contra 88 no mesmo mês de 2016, 97 em 2015 e 92 em 2014. Normann Kallmus fala que, diferente do que ocorreu até março, o desempenho desse indicador não foi suficiente para gerar um crescimento em relação ao ano passado.

Também em queda, MCV-PJ de abril foi de 65 pontos contra 76 no mesmo período de 2016, e 93 em 2015. “Este continua sendo o maior problema registrado na análise do mês, que corrobora a tendência que temos observado nos últimos meses. O comportamento desses indicadores parece sugerir que estão ocorrendo duas alterações significativas no comportamento das empresas do setor que é responsável por mais de 75% do PIB (Produto Interno Bruto) em valores agregados do município”, avalia Kallmus.

“Em primeiro lugar, as empresas não estão fazendo estoque, o que pode ser observado a partir do comportamento muito similar entre os MCV-PF e MCV-PJ. Esse comportamento poderia ser até considerado dinamizador da atividade, não fosse o fato de que acaba simultaneamente reduzindo a velocidade de circulação da moeda e reduzindo as vantagens comparativas em relação à concorrência externa. O outro aspecto a ser destacado é derivado da observação do fechamento de empresas e da alteração da atividade principal, de revenda a representação. Nesse aspecto, os movimentos da administração do município, em especial da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia – SEDESC, parecem indicar um caminho promissor ao procurar intensificar as trocas locais, reduzindo a evasão de capital, o que terá como consequência um aumento da arrecadação”, completa.

Perspectivas

O economista-chefe da ACICG afirma que maio é um mês importante para o varejo e 2017 deverá manter esta tendência. O gráfico a seguir foi construído a partir dos índices da Receita Nominal do Comércio e Serviços do IBGE, com foco para o segmento mais sensível à segunda data mais importante para o comércio, o Dia das Mães: Tecido, Vestuário e Calçados.

gráficoMCV1

“Como pode-se perceber facilmente a partir da análise do mesmo, a sazonalidade do setor é muito clara e indica dois “picos”: dezembro e maio. A linha azul é a média do Brasil, mas o comportamento é o mesmo em todas as regiões. A linha laranja é a que representa o índice de MS. Só aparece em 2017, porque foi quando o IBGE incluiu o estado em suas pesquisas. Sazonalmente, o indicador de maio para o setor situa-se em um nível 50% superior ao de janeiro, o que deverá causar um impacto positivo no MCV de pelo menos 10 pontos no mês em curso”, finaliza.

Análise da Conjuntura

Por Normann Kallmus[1]

O avanço das mudanças na legislação trabalhista e previdenciária apresentam algum alívio da pressão dos mercados, mas a insegurança jurídica resultado do comportamento errático do Supremo inibe grande parte da disposição para o investimento. Os problemas do país já não guardam relação com a condução da economia, mas com a política.

Não importa, neste momento, se as reformas são ou não suficientes para equilibrar a previdência. O essencial é que até agora os resultados nos aproximam dos demais países.

Se o problema é grave atualmente, a tendência natural, por conta do envelhecimento da população, é que se torne muito mais complexo.

Todas as projeções indicam que o “bônus demográfico” termina em 2022. Isso significa que a partir desse momento, a razão entre população ativa e inativa começará a cair. Em miúdos, começaremos a ter um número cada vez menor de ativos e cada vez maior de inativos.

Essa realidade não pode ser alterada por decreto. Simplesmente é uma imposição demográfica, contra a qual não podemos lutar, assim como não se pode mudar a lei da gravidade.

A imagem abaixo é do Financial Times e ilustra a comparação do comprometimento do PIB com pensões. Como chegamos nisso? É fácil: cortesia com o chapéu alheio.

gráficoMCV2

Se o judiciário não atrapalhar, deveremos ter um alívio nessa pressão. A questão é ainda mais relevante se considerarmos que a previdência rural, atingiu em 2015 um índice de judicialização de 30,2%. Olha o chapéu alheio aí de novo.

[1]Normann Kallmus é economista-chefe da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), especialista em Gestão do Conhecimento (COPPE/UFRJ), Administração de Projetos Logic-Frame (BID) e Educação Ambiental (SENAC).